Comprar demais é dinheiro parado que às vezes estraga. Comprar de menos é prato fora do cardápio na sexta à noite. A compra por intuição alterna entre os dois erros a vida inteira — e a conta que ela cobra aparece em dois lugares que ninguém liga um ao outro: o capital parado na despensa e a venda que não aconteceu.

As três variáveis do cálculo

Consumo médio diário. Quanto do insumo sai por dia, com base no consumo real registrado — não na compra.

Lead time. Quantos dias entre fazer o pedido e a mercadoria estar utilizável. Inclui o dia da entrega e, quando houver, o tempo de descongelamento ou maturação.

Estoque de segurança. A margem para variação de demanda e atraso de fornecedor. Costuma ser de 20% a 50% do consumo do lead time, conforme a criticidade do item.

A fórmula do ponto de reposição

Ponto de reposição = (consumo médio diário × lead time) + estoque de segurança

Exemplo prático: um insumo com consumo de 8 kg/dia, lead time de 3 dias e estoque de segurança de 10 kg tem ponto de reposição em 34 kg. Quando o saldo cruza esse número, o pedido precisa sair — independentemente de ser dia de compra.

A quantidade a pedir é a diferença entre o estoque máximo definido e o saldo atual, ajustada para o múltiplo de embalagem do fornecedor:

Quantidade = estoque máximo − saldo atual − pedidos em trânsito

Simulação: cinco insumos de uma cozinha

Consumo apurado pela baixa de ficha técnica dos últimos 60 dias:

Insumo Consumo/dia Lead time Est. segurança Ponto de reposição Saldo hoje Ação
Carne bovina 8,0 kg 3 dias 10,0 kg 34,0 kg 31,5 kg 🔴 Pedir
Queijo mussarela 4,2 kg 2 dias 4,0 kg 12,4 kg 22,0 kg ok
Batata pré-frita 11,5 kg 4 dias 18,0 kg 64,0 kg 58,0 kg 🔴 Pedir
Tomate 6,0 kg 1 dia 3,0 kg 9,0 kg 14,0 kg ok
Óleo de fritura 9,0 L 5 dias 18,0 L 63,0 L 96,0 L ⚠️ Excesso

Três leituras que a intuição não dá:

A carne está a 2,5 kg da ruptura e ninguém notou, porque o saldo de 31,5 kg "parece muito". Contra um consumo de 8 kg/dia e três dias de espera, não é.

O óleo tem 33 litros acima do necessário — quase quatro dias de consumo parados, comprados porque estava em promoção. A R$ 8,40 o litro, são R$ 277 imobilizados, com prazo de validade correndo.

O tomate tem lead time de 1 dia e por isso precisa de estoque baixíssimo. Tratar todo insumo com a mesma folga é o que enche a câmara fria de hortifrúti que apodrece.

Por que isso precisa vir das vendas

Se o consumo médio for calculado a partir das compras, você automatiza o próprio erro: continua comprando o que sempre comprou. Se vier da baixa por ficha técnica, o número reflete o que a cozinha efetivamente consumiu para produzir o que foi vendido.

É a diferença entre repetir o hábito e responder à demanda.

Passo a passo: ligando a compra ao consumo

  1. Feche a ficha técnica dos pratos que fazem 80% das vendas. Sem ela não existe consumo apurado, e sem consumo apurado a fórmula não tem entrada.
  2. Meça o lead time real de cada fornecedor, do pedido à mercadoria utilizável — não o prazo que ele promete.
  3. Classifique os insumos por criticidade e defina o estoque de segurança: 20% para item de reposição rápida, 50% para item crítico ou de fornecedor único.
  4. Calcule o ponto de reposição de cada insumo e cadastre no sistema.
  5. Ligue a sugestão de compra automática, agrupada por fornecedor, e revise antes de enviar nas primeiras semanas.
  6. Confira o recebimento contra o pedido, registrando divergência de quantidade e de preço. É aqui que o histórico de negociação se forma.

O que o sistema deve entregar

  1. Sugestão de compra por fornecedor, agrupada, pronta para envio.
  2. Alerta de ruptura iminente antes de o ponto de reposição ser cruzado.
  3. Sazonalidade por dia da semana — sexta e sábado consomem diferente de terça.
  4. Histórico de preço por insumo e fornecedor, para negociar com dado.
  5. Conferência de recebimento contra o pedido, com registro de divergência.

Matriz de erros comuns

Erro O que custa Como corrigir
Consumo calculado pela compra Automatiza o erro de compra existente Consumo pela baixa de ficha técnica
Lead time prometido, não medido Ruptura no item de fornecedor que atrasa Medir do pedido à mercadoria utilizável
Estoque de segurança igual para tudo Hortifrúti apodrece; item crítico falta Segurança por criticidade, 20% a 50%
Comprar promoção sem checar giro Capital parado com validade correndo Comparar o lote ofertado ao consumo do período
Ignorar pedidos em trânsito Pedido duplicado do mesmo insumo Descontar o que já está a caminho
Recebimento sem conferência Divergência de preço e quantidade some Conferir contra o pedido, registrar diferença

Ação hoje

  1. Escolha os cinco insumos mais caros do estoque e calcule o consumo médio diário dos últimos 30 dias.
  2. Ligue para dois fornecedores e confirme o lead time real do último pedido — do envio à entrega.
  3. Calcule o ponto de reposição desses cinco e compare com o saldo atual. Algum já está abaixo?
  4. Some o valor dos itens que têm mais de 15 dias de consumo parados na despensa.
  5. Verifique se a última compra em promoção coube no giro ou virou validade correndo.

Próximo passo

A entrada de tudo isso é o consumo apurado, e ele nasce em um documento: como criar uma ficha técnica perfeita.

Saldo confiável exige contagem que ninguém abandona no segundo mês: como fazer inventário de estoque sem fechar o restaurante.

E se a conta hoje mora numa planilha que só uma pessoa sabe atualizar, o limite chega rápido: planilha de estoque ou sistema ERP.